Manu Lafer

Músico e Compositor

bio

    Manu Lafer não lembra quando foi a primeira vez que pensou em ser músico, mas pessoas próximas lhe contam que aos três anos já verbalizava esse desejo, certamente despertado pelo fato de viver em uma casa onde se amava profundamente a música, o hábito de ouvi-la em casa e na rua.

    “Meus pais tinham uma parede coberta de LPs (devo aos dois, minha mãe impressionou a musicista Marlui Miranda, com quem pesquisou esta arte em nossos povos indígenas, que dizia que ela ia direto ao que havia de melhor), com muita coisa de música brasileira, e eu cresci ouvindo esses discos, além de participar de reuniões e festas nas quais fazer e ouvir música era um elemento central”, diz ele, que, depois de receber autorização de manusear a vitrola dos adultos, consumiu toda a discoteca dos pais.

    Também pedia para ser levado aos shows que então ocorriam aos domingos no Parque Volpi, perto de onde moravam. “Lembro, devia ter uns cinco anos, assistindo a um show do Chico Buarque e do Caetano Veloso; foi muito impressionante estar ali, tão próximo deles”. Também viu apresentações de Carlinhos Vergueiro, Adoniran Barbosa (diversas vezes), Alceu Valença e muitos outros artistas. Da experiência de sentir a energia de um palco ao vivo ficou uma certeza que o acompanha até hoje: a de que a música é acima de tudo troca, comunhão, experiência coletiva.

    Ainda menino, Manu já mantinha uma rotina de idas aos sebos em busca de referências, estimuladas por coleções que os pais possuíam, como uma antologia de música brasileira com encartes assinados pelo historiador e crítico musical José Ramos Tinhorão. “Com 7, 8 anos eu já sabia quem era todo mundo: Noel Rosa, Dorival Caymmi, Ary Barroso…”. Outra fonte de inspiração foram os discos de ritmos regionais brasileiros lançados pelo pesquisador Marcus Pereira, criador do selo independente Discos Marcus Pereira, na década de 70. Samba, baião, marchas, uma gama de estilos musicais genuinamente brasileiros pesquisados e registrados por Pereira, um publicitário apaixonado por música, incorporaram a paleta de referências de Manu.

Formação e Referências
    Aos 14 anos, consolidada a certeza de que a música era algo essencial à sua expressão, Manu deu um passo decisivo: foi aprender violão com Luiz Tatit, que, em paralelo à sua carreira acadêmica e musical, por muito tempo ensinou o instrumento para jovens músicos de São Paulo. Foram três anos de aprendizado (e só não foram mais porque Tatit deixou de dar aulas), ao longo dos quais Manu compôs suas primeiras músicas com o auxílio do violão. Aos 15, quando fez seu primeiro show no Colégio Oswald de Andrade, uma escola onde, segundo sua própria observação, “havia mais músico que gente”, já foi tocando um repertório próprio.

    Nas aulas de Tatit, ele mergulhou na chamada escola brasileira de violão, estudando toda a obra de músicos como Gilberto Gil e seu expoente máximo, João Gilberto, que Manu reverencia e de quem assistiu um número impressionante de shows, considerando a inconstância do músico baiano nos palcos. Foram mais de 20, no Brasil e exterior. “Fui a shows dele em São Paulo, Rio, Juiz de Fora, Nova Iorque, Brasília; eu o seguia, largava o que estava fazendo para vê-lo, porque sabia que cada apresentação era diferente, cada música era tocada de forma única”. Depois, Manu seguiu seus estudos em música com mestres como Ná Ozzetti (canto), César Nogueira (violão) e Ítalo Peron (Harmonia) e posteriormente com Wagner Barbosa (canto).

Medicina
    Tornar-se músico profissional ou amador, no entanto, nunca esteve nos planos de Manu, que prestou vestibular para medicina (e até hoje não escolheu nenhuma das duas como profissão, foi escolhido por elas). Em 1991, ingressou na Escola Paulista de Medicina (atual UNIFESP), e logo percebeu que teria uma enorme exigência de empenho e dedicação à frente. Para não ter que abandonar a música, algo impensável, optou pelo estratagema de exender um dos anos em dois do curso, o que ninguém tinha feito (havia muitos que trancaram a matrícula, repetiram e até desistiram) em 60 anos da instituição, diluindo assim sua carga de estudos.

    Ao final dos cerca de 10 anos anos de faculdade e residência, Manu passou a dedicar-se à Pediatria, com passagens como pesquisador na Universidade de Columbia (onde fez pesquisas de seu doutorado), em Nova Iorque, e na Food And Drug Administration (FDA), em Maryland; também possui atuações em Saúde Indígena, Vacinação, Virologia, Saúde de Família e Comunidade, e colabora com o Ministério da Saúde e com o Hospital Israelita Albert Einstein, onde é pesquisador, e atua na Ordem dos Cavaleiros da Cruz de Malta desde 2004, como pediatra. “Eu me realizo na medicina, quando entro cansado, saio descansado… a medicina leva você a prestar atenção nas outras pessoas e nas necessidades delas, elas confiam a você o que é mais importante na vida delas, não tem como priorizar as suas ou do seu círculo”.

Baião da Flor
    Junto com o Manu médico, nasceu o primeiro disco do Manu músico, Baião da Flor. Lançado em 1998, com gravações que em vários momentos foram intercaladas com plantões em hospitais, “Baião…” contou com dezenas de shows realizados antes e depois do lançamento, além da gravação de programas de TV.

    “Quando gravei esse disco eu já tinha muitas músicas, e selecionei 30 delas junto com o produtor, o Alê Siqueira, que trabalha comigo até hoje, levando em conta a unidade no repertório e nos instrumentos. O nome Baião da Flor não é conceitual, é uma música que foi feita de outras músicas, é uma homenagem à música brasileira, com muitas citações ao longo da letra”. O coprodutor foi Leandro Bonfim.

Parcerias
    Desde Baião da Flor Manu já lançou cerca de 20 CDs e streamings, tanto autorais como interpretando o cancioneiro brasileiro e americano, além de uma incursão pelo judaico.

    Coerente com sua crença, desde menino, de que música é troca e experiência coletiva, ele sempre privilegiou as parcerias, fosse compondo ou incluindo outros artistas para cantar para suas músicas nos discos (“Me considero um compositor que canta, então é muito bom ter intérpretes apresentando minhas músicas”). Um dos seus principais parceiros até hoje é Danilo Caymmi, que conheceu o trabalho de Manu por meio de um programa de TV na época do lançamento do Baião da Flor e fez contato. Desde então, consolidou-se uma amizade marcada por dezenas de composições conjuntas.

    Outro parceiro (aí como intérprete), este desde a época da faculdade, é Germano Mathias, compositor e cantor com mais de 60 anos de carreira, considerado o maior expoente do samba paulistano. Desde Baião da Flor, onde Germano canta “Eu vou te pegar”, até “Amigo de garfo”, que alude ao clima dos almoços “filados” por Manu em Vila Brasilândia, foram muitos encontros e trocas entre os dois músicos.

    Manu compôs também com autores como Luiz Tatit, Dori Caymmi, Toninho Horta, Fabio Tagliaferri, Guilherme Wisnik, Alexandre Barbosa de Souza, Bruno Giovannetti, Jack Wilkins e John Pizzarelli. E foi gravado por artistas como Nana Caymmi, Danilo Caymmi, Dori Caymmi, Ná Ozzetti, Mateus Aleluia, Germano Mathias, Karina Zeviani, Mariana Bernardes, Monica Salmaso, Cris Aflalo, Josyane Melo, Marcelo Pretto, José Miguel Wisnik, Darryl Tookes, Maude Maggart, John Pizzarelli e Branca Lescher, entre outros.

    Na produção, seu parceiro mais frequente é Alê Siqueira (Os Tribalistas), além de Swami Jr (Omara Portuondo). Entre os arranjadores presentes em seus discos estão Lincoln Olivetti, Jaques Morelembaum, Luiz Brasil, Dori Caymmi, Andre Mehmari e Jetter Garotti Jr. Nos shows, é dirigido por Fabio Tagliaferri desde o lançamento de seu primeiro CD. Como violonista, Manu também possui vários trabalhos com arranjos de referências internacionais, em parceria com nomes como Swami Junior, Howard Alden, Jack Wilkins, Bucky Pizzarelli, Dori Caymmi, Ehud Asherie, Warren Vaché e Ken Peplowski.

    Com cerca de 400 músicas compostas e mais de 100 gravadas, Manu tem projetos em gestação ou recém lançados. “Sambadobrado”, que tem Graça Braga como intérprete e traz um repertório totalmente voltado aos sambas compostos pelo músico, é exemplo (show de lançamento em março de 2020).

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